Pólo Sul: dois anos de solidão

Aventura sueca na Antártica em 1902, exibida no documentário argentino Presos no Fim do Mundo, deu pontapé inicial na exploração do Pólo Sul

por Cláudia de Castro Lima

O gosto por aventura provavelmente era parte do código genético do geólogo sueco Otto Nordenskjöld. Sobrinho do explorador Adolf Erik Nordenskjöld (que descobriu uma passagem ao norte da Sibéria), Otto foi o líder de uma das mais incríveis jornadas à Antártica. Deu quase tudo errado em sua viagem ao Pólo Sul, que durou bem mais que o previsto, dois anos. Mas ele voltou de lá com uma enorme bagagem de descobertas científicas – e deu o pontapé inicial para as investigações polares na América do Sul.

A viagem do sueco e sua equipe de exploradores, mostrada no documentário argentino Presos no Fim do Mundo,  foi impulsionada por congressos de geografia realizados no final do século 19. Os encontros visualizaram a riqueza científica do ainda inóspito território polar do Sul – depois deles, várias nações patrocinaram equipes para explorar o local. Quando Otto preparava sua viagem, pelo menos outras duas expedições também estavam no estágio final de planejamento: uma alemã, sob o comando de Erich von Drygalski (a Gauss), e uma britânica, liderada por Robert Falcon Scott (a Discovery).

Otto zarpou de Gotemburgo, na Suécia, em 16 de outubro de 1901. Chegou nas ilhas Shetland do Sul em 11 de janeiro do ano seguinte a bordo do navio Antarctic. Em fevereiro, o navio deixou o sueco, outros cinco tripulantes, equipamentos e alguns cachorros em terra e foi para as ilhas Malvinas, esperar o inverno passar. Deveria voltar no fim do ano, com o verão, para resgatar os aventureiros, que passariam a estação gelada em uma cabana de 26 metros quadrados, construída por eles.

Uma série de problemas atrapalhou os planos. O gelo do mar não derreteu o suficiente para abrir passagem para o Antarctic e o navio acabou preso nas geleiras. Otto e a tripulação não tiveram outra alternativa senão esperar – e passar mais um rigoroso inverno na cabana. A equipe sueca só foi resgatada em novembro de 1903, pelo navio argentino Uruguay. O geógrafo publicou suas descobertas científicas, como alguns fósseis, em Wissenschaftliche Ergebnisse der Schwedischen Südpolar-Expedition 1901-1903 (“Resultados Científicos da Expedição Sueca ao Pólo Sul 1901-1903”) e passou o resto dos dias como reitor de uma universidade sueca – possivelmente, relembrando sua viagem.

 

Para baixo e avante

Quem foramos desbravadores pioneiros

1821

Em fevereiro,o navegador John Davis virou a primeira pessoa a desembarcar no continente antártico. Davis havia partido de Connecticut e pretendia chegar às ilhas Shetland para caçar focas

1823

Em fevereiro, o inglês James Weddell torna-se o homem a navegar mais ao sul da Antártica – tanto que o mar de Weddell foi batizado em sua homenagem

1892

Em novembro, o capitão Carl Larsen e seu navio Jason chegam à Península Antártica fazem descobertas importantes: os primeiros fósseis de lá

1899

Entre fevereiro e dezembro, uma expedição comandada pelo aventureiro Carsten Borchgrevink completa a primeira temporada de inverno passada inteiramente no continente antártico

1900

Em outubro, o naturalista Hanson, membro da expedição de Borchgrevink, morre misteriosamente. Foi o primeiro homem a ser enterrado na Antártica

1902

Em fevereiro, dois eventos importantes. Além da expedição de Otto Nordenskjöld ter desembarcado no continente, acontece o primeiro vôo de balão sobre a área. À bordo,o famoso explorador Robert Falcon Scott. Em dezembro, numa expedição a pé, Otto encontra alguns fósseis. No mesmo mês, Scott chega o mais perto do Pólo Sul que alguém jamais conseguira

1903

Em fevereiro, o navio Antarctic afunda – é o primeiro a submergir em águas ao sul

1908

Em janeiro, seis homens, entre eles o explorador inglês Ernest Shackleton, são os primeiros a chegar ao topo do vulcão Erebus(3 794 metros), na ilha de Ross, na Antártica

 

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