brasilianas
Quem viaja pelo Brasil, em busca dos poucos locais que a memória nacional preservou, vez ou outra
tropeça em um país que se perdeu no tempo. Ele está representado em museus, casas de fazenda, palácios, bibliotecas e prédios públicos do século 19. São locais de arquitetura bonita e elegante, que têm em comum o aspecto mais europeu do que tropical. Alguns exemplos são a Chácara da Baronesa, na cidade gaúcha de Pelotas, o Palácio do Catete, no Rio de Janeiro (hoje convertido em Museu da República), as fazendas dos barões do café no Vale do Paraíba e os casarões em ruínas dos senhores de engenho no Recôncavo Baiano. De todos eles, o mais simbólico é o Palácio Imperial de Petrópolis, onde, às vésperas da República, a nobreza se refugiava em busca do clima ameno das serras fluminenses.
O que mais impressiona nesses locais é a sensação de estranhamento quando se olha em volta. Esses monumentos estão cercados pela arquitetura pobre das lajes que cobrem os morros ou pelos letreiros luminosos das casas de comércio que invadem as calçadas e encobrem o pouco que sobrou da antiga elegância europeia. São ilhas de um Brasil que poderia ter sido e não foi. Dois livros lançados em 2008 ajudam a decifrá-las. O primeiro é a biografia da condessa de Barral, escrita pela
historiadora Mary Del Priore. Luisa Margarida Portugal e Barros (1818- 1891) era filha de Domingos Borges de Barros (1780-1855), visconde de Pedra Branca, dono de vários engenhos de açúcar no Recâncavo Baiano. Ela foi um dos personagens mais notáveis do fim do século 19. Educada em Paris,
frequentou os salões da corte na Europa e no Rio de Janeiro e se tornou o amor platônico do imperador Pedro II (1825-1891), que por ela alimentou uma grande paixão até o fim da vida.
O outro livro é o perfil de Joaquim Nabuco (1849-1910) escrito pela socióloga e historiadora Angela Alonso, da Universidade de São Paulo. Nabuco, o pai do movimento abolicionista brasileiro, era filho do senador Nabuco de Araújo (1764-1844), senhor de engenho de Pernambuco e ministro de Pedro II. Passou a infância entre escravos na Zona da Mata pernambucana, estudou nas melhores escolas do Brasil e, em boa parte da vida, viajou pela Europa e pelos Estados Unidos. Era um homem elegante e cosmopolita, símbolo de um Brasil preparado nas universidades europeias.
Esses dois livros mostram que no crepúsculo do século 19 havia um projeto de Brasil que naufragou. Nos estertores do Império, o país estava sendo pensado e conduzido por uma elite pequena, mas muito bem preparada, que se acreditava mais europeia que brasileira. Era das capitais da Europa frequentadas por Nabuco e a condessa de Barral que chegavam os traços elegantes da arquitetura neorenascentista de Pelotas, financiada pelos charqueadores que exportavam carne curtida para o mundo todo, dos casarões dos senhores de engenho da Bahia e de Pernambuco ou ainda dos barões do café de Vassouras e cidades vizinhas. Era uma aristocracia que mandava seus filhos estudar na França, tinha contato com as ideias liberais e iluministas discutidas nos salões europeus, mas tirava sua riqueza da exploração da mão-de-obra escrava. Era, portanto, um país rico e cosmopolita ilhado por um mar de pobreza e tensão social.
Convivência precária
Pobre, analfabeto e dependente de trabalho dos cativos, o Brasil do fim do século 19 continuava anestesiado por séculos de exploração escrava. Era um país perigosamente indomável, onde brancos, negros, mestiços, índios, senhores e escravos conviviam de forma precária, sem um projeto definido de sociedade ou nação. "Amalgamação muito difícil será a liga de tanto metal heterogêneo (...) em um
corpo sólido e político", escrevia já em 1813 o futuro Patriarca da Independência, José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), ao embaixador de Portugal na Inglaterra, dom Domingos de Souza Coutinho. Na visão de José Bonifácio e outros líderes da época, o conflito de interesses numa sociedade tão heterogênea poderia se revelar incontrolável. "A raça branca acabará em mãos de outras castas e a província da Bahia desaparecerá para o mundo civilizado", afirmava, em 1823, o pensador Francisco de Sierra y Mariscal, ao analisar o movimento da independência e seus desdobramentos no Nordeste brasileiro.
Entre 1807 e 1835, os cativos na Bahia fizeram mais de duas dezenas de conspirações e revoltas, mantendo os senhores de engenho em permanente estado de alerta. A escravidão era uma fonte constante de tensão social, especialmente depois que a revolta de negros na ilha de São Domingos tinha resultado num banho de sangue entre os colonos brancos - a mesma ilha abriga hoje a República Dominicana e o Haiti, este um dos países mais pobres do mundo. "Os escravos são sempre inimigos naturais de seus senhores: eles são contidos pela força e pela violência", afirmava José Antônio Miranda, autor de um panfleto que circulou no Rio em 1821 com análise da situação política do Brasil e de Portugal.
A temida bomba social nunca explodiu, mas a dura realidade de exclusão e desigualdade, herança da escravidão, foi se impondo na paisagem brasileira como um tsunami silecioso, que afogou esse Brasil elegante e sofisticado, onde poucos tentavam traçar o destino de muitos.
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Aventuras na História
edição 075, outubro 2009
Babilônia.
Um mergulho profundo na civilização que nos deu a escrita, a matemática, a astronomia e a Torre de Babel.
- sumário da edição 075
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