A lista de Aristides

O diplomata português salvou mais gente na Segunda Guerra Mundial que o alemão Oskar Schindler. Como recompensa, foi condenado pela ditadura de Salazar à pobreza e à desonra

por Mauro Tracco

Em 2006, a Rádio e Televisão de Portugal (RTP) pediu a seus telespectadores que escolhessem o "maior português de todos os tempos". Aristides de Sousa Mendes ficou em terceiro lugar, à frente de nomes como Fernando Pessoa, Luís de Camões e o marquês de Pombal. Mas, se a pesquisa fosse feita 20 anos antes, ele provavelmente não teria recebido nenhum voto. Em junho de 1940, cônsul português em Bordeaux, ele desobedeceu às ordens do ditador António de Oliveira Salazar (1889-1970) e concedeu visto a milhares de refugiados que escapavam das tropas de Hitler enquanto os nazistas invadiam a França. Estima-se que 30 mil pessoas foram salvas, das quais 10 mil eram judeus.

Pela decisão, Aristides foi destituído do consulado e condenado a ficar sem trabalho. O aristocrata, partidário da monarquia e de valores lusitanos tradicionais, era um aspirante improvável ao papel de herói. No entanto, diante das circunstâncias extremas que se apresentaram, ele mostrou sua verdadeira natureza. Aos 55 anos, arriscou uma carreira bem-sucedida e o futuro de sua família para salvar as vidas de desconhecidos. "Aristides enfrentou uma hierarquia que considerava o diplomata um militar à paisana", diz Manuela Franco, pesquisadora do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa.

Berço conservador

Aristides e seu irmão, César, nasceram em 19 de julho de 1885, em Cabanas de Viriato, na região de Beira Alta. Os gêmeos foram criados no seio da aristocracia rural, católica e monárquica, típica do norte de Portugal. O pai, José de Sousa Mendes, era um respeitado juiz em Coimbra. Os dois irmãos fizeram Direito e seguiram carreira diplomática. Em 1909, Aristides viu nascer seu primogênito e, em 1910, partiu com a família para Demerara, na Guiana. Muitos outros países e filhos viriam pela frente.

Ao todo, teve 14 crianças com sua mulher Angelina, que nasceram em lugares como Zanzibar, Brasil, Estados Unidos, Espanha, Bélgica e até em Portugal. Em sua mansão em Cabanas de Viriato, o padre da vila era convidado frequente. E toda quinta era dia dos pobres. Quem não tinha o que comer recebia pão e um prato de sopa. Mesmo que ele estivesse fora do país, o feitor da casa tinha ordens de deixar a porta da cozinha aberta.

No primeiro ano de seu governo, Salazar, que liderou Portugal de 1932 a 1968, fez César de Sousa Mendes seu ministro de negócios estrangeiros. Na época, Aristides e a família viviam na Bélgica. Em 1938, pediu transferência para a China ou o Japão. Mas o governo negou e o nomeou cônsul-geral em Bordeaux, onde faria história.

Depois de invadirem a Polônia, em setembro de 1939, as tropas de Hitler ocuparam Dinamarca, Noruega, Holanda, Bélgica e Luxemburgo. Em junho de 1940, chegou a vez da França. "O governo não preparou a população para a eventualidade da capitulação; recuava agora na direção de Bordeaux. Mais de 3 milhões de franceses se puseram em movimento para sul e oeste", diz Manuela Franco. "Para muitos, a única saída era Lisboa, o último porto do Atlântico."

Oficialmente, Portugal adotou posição neutra na guerra, mas Salazar, em 11 de novembro de 1939, proibiu os consulados de dar vistos a refugiados, por meio da circular número 14. "Os cônsules de carreira não poderão conceder vistos sem prévia consulta." O documento também barrava o visto "aos estrangeiros de nacionalidade indefinida, contestada ou em litígio, aos apátridas. E ainda (...) aos judeus expulsos dos países de sua nacionalidade ou daqueles de onde provêm".

Em meio ao caos que assolava Bordeaux, Aristides acolheu um rabino chamado Jacob Kruger em sua casa. Ele já havia concedido alguns vistos sem obedecer a circular 14 e prometeu ao rabino fazer o mesmo por sua família. "Não sou só eu que preciso de ajuda, mas todos os meus irmãos que têm a vida em risco", disse Kruger. Segundo o jornalista francês Jose-Alain Fralon, autor de Aristides de Sousa Mendes - Um Herói Português, um dos filhos do diplomata, Pedro Nuno, foi testemunha do diálogo: "De repente, meu pai pareceu imensamente fatigado, como se tivesse acabado de contrair uma doença fulminante. Olhou para nós e foi se deitar".

Por três dias e três noites, Aristides de Sousa Mendes ficou isolado no seu aposento. Na manhã do quarto dia, 16 de junho, abriu a porta do escritório e disse: "A partir de agora vou dar visto a toda gente. Deixou de haver nacionalidades, raças e religiões". De acordo com Pedro Nuno, seu pai afirmou ter ouvido uma voz, a de Deus ou a de sua consciência, que lhe ditara a conduta a seguir. "Só agindo dessa forma, seguindo a minha consciência, serei digno da minha fé de cristão."

Linha de montagem

Era hora de trabalhar. Ajudado por Kruger, Aristides passou a assinar vistos ininterruptamente. Para acelerar o processo, os dois organizaram uma linha de montagem. O rabino recolhia os passaportes na frente do consulado, Aristides os assinava, o secretário consular carimbava e, pronto, Kruger já podia devolver os documentos aos donos. A notícia de que o cônsul português estava distribuindo vistos se espalhou. Em 17 de junho, enquanto os alemães, a caminho dos Pirineus, já estavam em Dijon, uma multidão esperava a salvação em frente ao consulado de Portugal em Bordeaux. Em 20 de junho, depois de quatro dias de trabalho, a paz voltou ao consulado. Munidos de visto, milhares deixaram a cidade.

Mas o cônsul não se deu por satisfeito. Mais ao sul, em Toulouse, Baiona e Hendaia, outros milhares estavam na mesma situação. Sousa Mendes já havia autorizado o vice-cônsul em Toulouse, o francês Emile Gissot, a conceder vistos. Corria, agora, para chegar a Baiona. Os alemães não tardariam e Portugal não permitiria a desobediência por muito tempo.

Em Baiona, usou a força do posto de cônsul-geral e ordenou aos funcionários do consulado que concedessem vistos a todos. A linha de montagem foi reativada, dessa vez por três dias e duas noites. Mas o cônsul em Baiona alertou os superiores em Lisboa. Ao mesmo tempo, autoridades espanholas reclamaram da onda de refugiados portadores de vistos portugueses, o que enfureceu o ditador. "Salazar, para quem a aliança com Franco [general Francisco Franco, ditador na Espanha de 1936 a 1975] era essencial, nunca mais perdoaria Sousa Mendes pela perturbação daquela bela amizade", escreveu Fralon. Em 23 de junho, um telegrama governamental enviado a Bordeaux retirou de Aristides a maioria de suas atribuições, principalmente o poder de conceder vistos.

Ainda assim, o diplomata prolongou o quanto pôde o jogo de gato e rato com seus superiores. Era encontrado em praças de Hendaia e em outras cidades da fronteira colocando visto em passaportes, documentos de identidade e papéis em branco. Até folhas de jornais receberam o carimbo consular e sua assinatura redentora. No entanto, para muitos, já era tarde. Funcionários franceses e espanhóis foram instruídos a não aceitar vistos emitidos pelo consulado de Bordeaux. Em 30 de junho, a bandeira com a suástica foi içada na cidade. Havia chegado ao fim o que o historiador Yehuda Bauer, professor de Estudos do Holocausto na Universidade Hebraica de Jerusalém, classifica como a maior ação de salvamento levada a cabo por um só homem.

O número mais divulgado é o de 30 mil pessoas salvas, sendo um terço de judeus. "Existe exagero, embora não haja dados seguros", diz Elvira Mea, professora de História da Universidade do Porto. "Não saberemos nunca quantos vistos foram dados", afirma Manuela Franco. Ela afirma que, a certa altura, o ritmo do trabalho impossibilitou que todos os nomes fossem documentados. Além disso, "não há registro dos vistos concedidos sob a autoridade de Sousa Mendes no consulado em Baiona, nem em Hendaia, na rua ou na fronteira".

Quando Aristides voltou a Lisboa, Salazar mandou abrir um inquérito sobre a desobediência a uma ordem superior. Para a acusação, "a atitude do réu desprestigiou Portugal perante as autoridades espanholas e as alemãs de ocupação". Em sua defesa, Aristides escreveu: "Posso ter errado. Mas, se errei, não o fiz com intenção, tendo procedido sempre segundo os ditames da minha consciência. Meu desejo é mais estar com Deus contra o homem do que com o homem contra Deus."

O processo se arrastou até o fim de outubro, quando a comissão disciplinar recomendou uma suspensão não remunerada de suas atividades, por 30 a 180 dias úteis. Mas Salazar não concordou e condenou o diplomata a um ano de afastamento, com direito a metade do salário. Depois, deveria ser compulsoriamente aposentado, passando a receber um quarto de sua renda. Para um homem com dez filhos para sustentar, a sentença trouxe a ruína. "Ser banido do serviço público no Estado autoritário e corporativo português significava ser afastado da vida ativa", diz Manuela.

O cônsul ainda tentou exercer a advocacia. Aos 56 anos, contudo, pesavam a inexperiência e o fato de que ninguém queria os serviços de um advogado marcado politicamente. A família passou comer na cantina da Comunidade Judaica de Lisboa, junto com os refugiados da guerra. Aos poucos, todos os filhos tiveram que abandonar Portugal.

Angelina, sua mulher, faleceu em 1948. Aristides se casou de novo e passou os últimos anos na residência de Cabanas de Viriato. Com a nova companheira, Andrée, teve de vender móveis, pianos, livros e colchões. A saúde do cônsul também ia mal. Vítima de dois derrames, em 1945 e 1952, tinha o braço direito paralisado. E, em 3 de abril de 1954, não resistiu à terceira hemorragia cerebral. Fernanda, uma criada fiel até os últimos dias, segundo o livro de Fralon, teria declarado: "Morreu de fome e de frio ao tentar queimar as portas do palácio quando já nem sequer tinha força nos dedos para deitar as tabuas à lareira".

Durante anos, seu irmão César, que ainda ocupava importantes cargos como diplomata, escreveu a Salazar, suplicando o perdão e a reabilitação de Aristides. Nunca obteve resposta, até a morte de irmão, quando recebeu a primeira correspondência do ditador. Num cartão, apenas duas palavras escritas a mão: "Sentidos pêsames".

Gentio justo

Nenhum dos filhos de Aristides pôde comparecer ao funeral, mas eles nunca desistiram de lutar pela reabilitação do pai. As irmãs Joana e Teresa, que moravam nos Estados Unidos, entraram em contato com refugiados judeus salvos por Sousa Mendes, que escreveram ao então primeiro-ministro de Israel, David Ben Gourion, relatando os atos heroicos do diplomata. Com isso, o Centro Yad Vashem, de Jerusalém, iniciou uma investigação. O instituto é um centro de estudos e um memorial que concede o título de Gentio Justo aos que salvaram judeus durante a guerra.

Em 1961, as irmãs foram informadas de que uma árvore seria plantada no museu do Yad Vashem para honrar a memória do pai. Cinco anos depois, o instituto cunhou medalha comemorativa, maior homenagem prestada pela associação, com a frase "Quem salva uma vida, salva a Humanidade". E a história ganhou as páginas de revistas dos Estados Unidos. Em 1986, o congressista americano Tony Coelho integrou uma delegação de Washington que foi a Portugal assinar um tratado comercial entre os dois países. Os portugueses ficaram surpresos quando, em meio à discussões técnicas, os norte-americanos insistiram na necessidade de que Sousa Mendes fosse homenageado em seu país.
Dois anos depois, em 13 de março de 1988, a Assembleia Nacional portuguesa reabilitou oficialmente Aristides de Sousa Mendes. Ou seja, 48 anos depois dos salvamentos no sul da França. "A partir de então, muito mudou para seus descendentes. Sousa Mendes passou a ser conhecido como herói", diz Elvira Mea. O resultado da pesquisa da RTP comprovou o reconhecimento da coragem do diplomata. No entanto, o vencedor da consulta, com folga, foi António de Oliveira Salazar. Mesmo assim, Manuela Franco diz ficar satisfeita com "o lugar e interesse alcançado por Sousa Mendes, cuja história era desconhecida até pouco tempo atrás".

Saiba mais

LIVRO

Aristides de Sousa Mendes - Um Herói Português, Jose-Alain Fralon, Editorial Presença, 1999

Biografia crítica do diplomata escrita pelo jornalista, com registro de depoimentos e documentos.

SITES

www.mvasm.sapo.pt/

Página oficial do Museu Virtual Aristides Sousa Mendes.

www.sousamendes.com/

Em francês e em português, detalhes da trajetória de Aristides Sousa Mendes e do seu processo de reabilitação.

Diplomacia de alto risco
Outros membros de consulados que se arriscaram durante a Segunda Guerra

Aracy Guimarães Rosa

Era funcionária do consulado brasileiro em Hamburgo e ajudou a conseguir visto para perseguidos na Europa. Contrariava a Circular Secreta 1127 (de 1937), em que Getúlio Vargas restringiu a entrada de judeus no Brasil. Ela misturava os pedidos de autorização a outros papéis para conseguir a assinatura do cônsul-geral. Casou-se com o escritor Guimarães Rosa.

Raoul Wallenberg

Em 1944, o sueco concedeu documentos diplomáticos, chamados de passaportes de proteção, a milhares de judeus húngaros, evitando sua deportação para Auschwitz. Foi pessoalmente à estação para resgatar condenados que já estavam no trem com destino ao campo de concentração.

Georg Duckwitz

Adido comercial da embaixada da Alemanha em Copenhague e membro do Partido Nazista, alertou a comunidade judaica da Dinamarca sobre o plano de Hitler de deportar todos os judeus do país, e os ajudou no plano que transportou 6 mil pessoas para a Suécia em um navio cargueiro.

Feng Shan Ho

Em 1938, depois da anexação da Áustria pela Alemanha, o cônsul-geral da China em Viena concedeu, sem autorização superior, milhares de vistos a judeus austríacos para que se refugiassem em Xangai ou apenas saíssem do país.

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edição 075, outubro 2009 Babilônia.
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