Oriente Médio

Brasileiros na Faixa de Gaza

Durante 20 anos, militares atuaram em uma das regiões mais turbulentas do planeta

por Fred Linardi

Em 19 de janeiro de 1957, 15 oficiais brasileiros embarcaram em um avião da Força Aérea americana no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, com destino a Porto Said, Egito. Em território egípcio, o grupo se juntou, dias depois, a outros 485 militares que chegaram a bordo do navio Custódio de Mello. Na manhã de 4 de fevereiro, o grupo partiu para o destino final da viagem: Rafah, na Faixa de Gaza. Começava aí a primeira experiência do Brasil em missões da Organização das Nações Unidas. Durante dez anos, 6 mil homens atuariam em uma das regiões mais conturbadas do mundo.

O primeiro efetivo do Batalhão Suez dormia em barracas de lona. Não havia eletricidade e as fardas eram inadequadas para as variações de temperatura do deserto. Com o tempo, a situação melhorou. A ONU ergueu um acampamento de alvenaria com campo de futebol e a comida foi incrementada com arroz e feijão.

Mas algumas dificuldades permaneciam. A principal era lidar com a rotina, que se dividia entre vigílias longas e rondas perigosas. Além disso, falar com a família era difícil. "Não tínhamos telefone e só usávamos o rádio uma vez por mês", diz Leo Rabello, que esteve em Gaza em 1960 e hoje, aos 70 anos, é empresário de jogadores de futebol (como o meia-atacante Thiago Neves).

Cada militar permanecia um ano na região. Ao todo, 20 contingentes se sucederam, até que, em 5 de junho de 1967, a Guerra dos Seis Dias jogou os 427 brasileiros no meio do fogo cruzado. "Ficamos esperando transporte até que os bombardeios começaram", diz o cabo Fernando Vargas Neto, de 19 anos na época (hoje tem 61). Ao avistar um grupo de brasileiros, os militares israelenses começaram a atirar. Seis gaúchos ficaram em uma trincheira, rezando, até que conseguissem esclarecer a situação. Libertados, buscaram sua sede, o forte Worthington - que foi atacado no mesmo dia. "Não reagimos, mas eles só pararam depois de 15 minutos", diz Fernando. O mal-entendido matou o cabo Carlos Adalberto de Macedo, atingido por um tiro no pescoço.

O incidente marcou o fim das atividades do Batalhão Suez. A última equipe foi levada a Israel, onde embarcou no navio comercial Soares Dutra e chegou a Recife em julho de 1967. A ação brasileira seria reconhecida em 1988, quando os integrantes de todas as missões de paz realizadas até aquele ano foram agraciados com o Prêmio Nobel da Paz.

Distrito Brazil
Nome de campo de refugiados homenageia soldados nacionais

Durante as recentes ações militares de Israel na Faixa de Gaza, um míssil caiu acidentalmente sobre um distrito chamado Brazil, em Rafah. O nome do local, que abriga um campo de refugiados, é uma homenagem à vila onde o batalhão brasileiro permaneceu durante os dez anos de conflito árabe-israelense."Os civis de lá trabalhavam para o batalhão, na cozinha, na lavanderia. Eles gostavam de brasileiros e de futebol", diz Leo Rabello. "Quando fomos embora, aquele lugar virou um bairro com conjuntos habitacionais e eles colocaram o nome de Brazil", afirma Fernando Vargas Neto. A amizade estabelecida com os habitantes daquela região deixou marcas em alguns palestinos, que falam português por causa do convívio com o Batalhão Suez.

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